Arquivo mensal: abril 2015

O CERNE DO PROBLEMA SOCIAL

PECADO MORTAL

Já houve uma época em que as pessoas eram muito religiosas e tementes a Deus. Iam à missa todos os domingos. Seguiam os preceitos religiosos com muito rigor, muitas das vezes ao pé da letra. Moças tinham que se casar virgens, sexo antes do casamento era um grande pecado. Lembro-me até que alguns adultos ensinavam aos jovens rapazes como reconhecer se uma namoradinha ainda era virgem, introduzindo-se o dedo mindinho em sua vagina. Se entrasse muito fácil, já era. Abandonava-se a menina e procurava-se outra. Virgindade, mais que um tabu, era uma obrigação de uma jovem que quisesse ser considerada honrada e de família. E que quisesse casar. Perder a virgindade sem estar casada era perder a honra, e uma vez perdida, a menina estava perdida, literalmente. Era comum chamar certas garotas de ‘perdidas’ o que já indicava sua condição ‘não virginal’. Haviam as ‘moças de família’ e haviam ‘as outras’. Hoje eu me lembro disso e às vezes tenho dúvidas se realmente vivi nessa época. Era muita hipocrisia. A hipocrisia era tanta que que a frase que melhor definia o povo brasileiro na época era:

“O brasileiro é muito bonzinho. Ele aceita tudo, releva tudo e compreende tudo, desde que seja com a mulher do outro, com a mãe do outro ou com a filha do outro. Com a dele, jamais!”


GravidezSexo antes do casamento era pecado mortal. Expulsar uma filha de casa pelo mesmo motivo era ‘defesa da moral e dos bons costumes’. Dois pesos e duas medidas. Era muito comum naquela época, pais expulsarem suas filhas de casa porque fizeram sexo antes ou fora do casamento e acabaram engravidando. A principal desculpa para para tal atitude drástica era a de que a ‘honra da família’ havia sido manchada. Para limpar a honra da família, expulsava-se a filha de casa e com um filho na barriga. A família permanecia com sua honra preservada, já a pobre moça… Começava para ela o calvário. Não conseguia emprego em casas de família porque obviamente a futura patroa considprostituicaoerava uma moça que tivesse engravidado fora do casamento como uma ‘safada’ ou ‘descarada’ e poderia acabar ‘se passando’ com o chefe da casa ou com algum dos filhos. Não conseguindo emprego, o caminho mais lógico (e inevitável) para essa moça era a prostituição. Vender o corpo para ganhar algum dinheiro e assim garantir seu sustento bem como a moradia, que quase sempre seria em alguma ‘zoninha’ do centro de uma grande cidade ou nas periferias de cidades menores. Mas e o filho que estava na barriga? Fatalmente ele ira nascer, certo? Em que condições e em que ambiente? Muitas das desafortunadas moças acabavam por abandonar seus filhos em algum lugar, na vã esperança de que alguém cuidasse, mas isso na maioria das vezes não acontecia, então o fome_paquistao‘filho da puta’ acabava por se tornar um ‘menor abandonado’ vagando pelas ruas e praças das cidades a pedir esmolas para sobreviver. E quando esse menino ou menina crescia um pouco mais? Seu caminho mais lógico (e inevitável) era a delinquência juvenil e mais tarde a criminalidade. O que esperar de alguém que cresceu nas ruas, sem uma família, sem educação, sem valores? Matar alguém por R$ 10,00 não significa nada, ja que não aprendeu o respeito pela vida, nem pela sua nem pela dos outros.


Pires-da-Mota-SPDar nome às ruas era mais importante

Nos dois parágrafos acima já temos três problemas sociais e também suas decorrências. A prostituta, o menor abandonado e o menor marginal. Como isso começou? Com as famílias nobres e as de classe média alta. Com as famílias menos favorecidas isso também acontecia, mas era mais fácil uma família pobre acolher uma menina que ‘se desviou’ do que as famílias mais abastadas. Estas famílias foram as principais e maiores responsáveis por colocarem nas ruas as moças ‘perdidas’ que depois se tornaram prostitutas, abandonaram seus rebentos e por aí vai. Sim essas mesmenor-abandonadomas famílias nobres que dão nomes às ruas de bairros tradicionais de São Paulo, como Aclimação, Moóca, Belenzinho, Tatuapé, Carrão, Ipiranga e muitos outros cujos nomes já não lembro mais. Só em São Paulo? Não, claro que não. Esse fenômeno social acontecia com muito mais frequência nas cidades menores, onde era (e ainda é) muito comum as pessoas cuidarem da vida dos outros e comportarem-se como ‘guardiões da moral e dos bons costumes’. Gravidez antes do casamento era o maior crime que se poderia cometer contra esse conceito de ‘moral e bons costumes’. O segundo maior crime era a prostituição (quando ocorria na própria família, na dos outros não tinha problema). Menor abondonado? Bom… isso era problema ‘dos outros’. Esse tipo de coisa não acontecia na minha família, jamais. Não tenho nada a ver com isso. Mas caso acontecesse, era bem fácil de se resolver o problema e assim manter a honra da família preservada bem como a moral e os bons costumes: era só expulsar a menina ‘safada’ de casa. Resolvido.


oditador (1)Hoje os que defendem a redução maioridade penal, já são os da terceira ou quarta geração. Nunca sequer ouviram falar das coisas que descrevi acima. Não tem a menor ideia de como as coisas começam e quais os seus desdobramentos. Pensam que bandido já nasce bandido e que portanto deve ser banido. Não tem a menor ideia que os ‘menores abandonados’ que sobreviveram àquela época também se tornaram pais e mães de filhos que cresceram nas ruas ou em famílias totalmente desestruturadas, sem qualquer noção de valores humanos. E hoje esles estão aí, para cobrar tributo das ‘famílias nobres’ e de classe média alta que foram os principais criadores de toda essa infâmia. É muito fácil dizer que bandido tem que morrer. É muito fácil dizer que não há diferença entre um criminoso de 16 e um de 26 anos. É muito fácil negar a própria responsabilidade na geração dos problemas sociais. É muito fácil colocar a30-willful-ignorance cabeça em um buraco e fingir que o problema é dos outros ou está lá fora. Mas por incrível que pareça ainda há, entre os que defendem a redução da maioridade penal, pessoas da mesma geração em que pais expulsavam filhas de casa pelo bem da moral e dos bons costumes. São os que pregam moral de cuecas. São os que dizem que ‘bandido tem que morrer’, mas esquecem que alguns desses bandidos, podem muito bem serem seus bisnetos, nascidos em favelas cujos pais e mães foram gerados por moradores mais antigos da mesma favela e que ali chegaram vindos de famílias que os expulsaram de casa um dia, há trinta ou quarenta anos. O empresário bem sucedido que é vítima de um sequestro relâmpago e acaba morrendo por ter reagido, pode ser o mesmo pai que há quarenta anos expulsou uma filha de casa para defender a ‘honra da família’ e o sequestrador pode muito bem ser o bisneto de um grande amigo do empresário que também Sequestrofez a mesma coisa lá no passado: Expulsou uma filha de casa para defender a honra da família. É a concretização irônica da frase: “Chumbo trocado não dói”. Mas nesse caso dói, e dói muito, mas o sujeito não entende que suas ações no passado foram a causa e tem consequências no presente. E nunca vai entender. Lei de Causa e Efeito. Plantio livre, colheita obrigatória. Na cabeça dele, bandidos não nascem, brotam do chão e já caem na criminalidade. Prostitutas não nascem, brotam do chão e já caem na zona. Não existe e nunca existiu causa primária.


MINHA OPINIÃO PESSOAL

Se a redução da maioridade penal passar e for aprovada, dentro de cinco anos haverá um forte movimento pedindo nova redução, dessa vez para 14 anos. E mais três anos depois, já estaremos pleiteando uma redução para 12 anos. E dentro de dez anos o que teremos? Crianças de 10 anos sendo ‘usadas’ pelos ‘dimaió’ justamente por ainda serem ‘dimenó’ para cometerem crimes. E tenho dito. Escrevam por favor. 

Eduardo lbm