O CERNE DO PROBLEMA SOCIAL

PECADO MORTAL

Já houve uma época em que as pessoas eram muito religiosas e tementes a Deus. Iam à missa todos os domingos. Seguiam os preceitos religiosos com muito rigor, muitas das vezes ao pé da letra. Moças tinham que se casar virgens, sexo antes do casamento era um grande pecado. Lembro-me até que alguns adultos ensinavam aos jovens rapazes como reconhecer se uma namoradinha ainda era virgem, introduzindo-se o dedo mindinho em sua vagina. Se entrasse muito fácil, já era. Abandonava-se a menina e procurava-se outra. Virgindade, mais que um tabu, era uma obrigação de uma jovem que quisesse ser considerada honrada e de família. E que quisesse casar. Perder a virgindade sem estar casada era perder a honra, e uma vez perdida, a menina estava perdida, literalmente. Era comum chamar certas garotas de ‘perdidas’ o que já indicava sua condição ‘não virginal’. Haviam as ‘moças de família’ e haviam ‘as outras’. Hoje eu me lembro disso e às vezes tenho dúvidas se realmente vivi nessa época. Era muita hipocrisia. A hipocrisia era tanta que que a frase que melhor definia o povo brasileiro na época era:

“O brasileiro é muito bonzinho. Ele aceita tudo, releva tudo e compreende tudo, desde que seja com a mulher do outro, com a mãe do outro ou com a filha do outro. Com a dele, jamais!”


GravidezSexo antes do casamento era pecado mortal. Expulsar uma filha de casa pelo mesmo motivo era ‘defesa da moral e dos bons costumes’. Dois pesos e duas medidas. Era muito comum naquela época, pais expulsarem suas filhas de casa porque fizeram sexo antes ou fora do casamento e acabaram engravidando. A principal desculpa para para tal atitude drástica era a de que a ‘honra da família’ havia sido manchada. Para limpar a honra da família, expulsava-se a filha de casa e com um filho na barriga. A família permanecia com sua honra preservada, já a pobre moça… Começava para ela o calvário. Não conseguia emprego em casas de família porque obviamente a futura patroa considprostituicaoerava uma moça que tivesse engravidado fora do casamento como uma ‘safada’ ou ‘descarada’ e poderia acabar ‘se passando’ com o chefe da casa ou com algum dos filhos. Não conseguindo emprego, o caminho mais lógico (e inevitável) para essa moça era a prostituição. Vender o corpo para ganhar algum dinheiro e assim garantir seu sustento bem como a moradia, que quase sempre seria em alguma ‘zoninha’ do centro de uma grande cidade ou nas periferias de cidades menores. Mas e o filho que estava na barriga? Fatalmente ele ira nascer, certo? Em que condições e em que ambiente? Muitas das desafortunadas moças acabavam por abandonar seus filhos em algum lugar, na vã esperança de que alguém cuidasse, mas isso na maioria das vezes não acontecia, então o fome_paquistao‘filho da puta’ acabava por se tornar um ‘menor abandonado’ vagando pelas ruas e praças das cidades a pedir esmolas para sobreviver. E quando esse menino ou menina crescia um pouco mais? Seu caminho mais lógico (e inevitável) era a delinquência juvenil e mais tarde a criminalidade. O que esperar de alguém que cresceu nas ruas, sem uma família, sem educação, sem valores? Matar alguém por R$ 10,00 não significa nada, ja que não aprendeu o respeito pela vida, nem pela sua nem pela dos outros.


Pires-da-Mota-SPDar nome às ruas era mais importante

Nos dois parágrafos acima já temos três problemas sociais e também suas decorrências. A prostituta, o menor abandonado e o menor marginal. Como isso começou? Com as famílias nobres e as de classe média alta. Com as famílias menos favorecidas isso também acontecia, mas era mais fácil uma família pobre acolher uma menina que ‘se desviou’ do que as famílias mais abastadas. Estas famílias foram as principais e maiores responsáveis por colocarem nas ruas as moças ‘perdidas’ que depois se tornaram prostitutas, abandonaram seus rebentos e por aí vai. Sim essas mesmenor-abandonadomas famílias nobres que dão nomes às ruas de bairros tradicionais de São Paulo, como Aclimação, Moóca, Belenzinho, Tatuapé, Carrão, Ipiranga e muitos outros cujos nomes já não lembro mais. Só em São Paulo? Não, claro que não. Esse fenômeno social acontecia com muito mais frequência nas cidades menores, onde era (e ainda é) muito comum as pessoas cuidarem da vida dos outros e comportarem-se como ‘guardiões da moral e dos bons costumes’. Gravidez antes do casamento era o maior crime que se poderia cometer contra esse conceito de ‘moral e bons costumes’. O segundo maior crime era a prostituição (quando ocorria na própria família, na dos outros não tinha problema). Menor abondonado? Bom… isso era problema ‘dos outros’. Esse tipo de coisa não acontecia na minha família, jamais. Não tenho nada a ver com isso. Mas caso acontecesse, era bem fácil de se resolver o problema e assim manter a honra da família preservada bem como a moral e os bons costumes: era só expulsar a menina ‘safada’ de casa. Resolvido.


oditador (1)Hoje os que defendem a redução maioridade penal, já são os da terceira ou quarta geração. Nunca sequer ouviram falar das coisas que descrevi acima. Não tem a menor ideia de como as coisas começam e quais os seus desdobramentos. Pensam que bandido já nasce bandido e que portanto deve ser banido. Não tem a menor ideia que os ‘menores abandonados’ que sobreviveram àquela época também se tornaram pais e mães de filhos que cresceram nas ruas ou em famílias totalmente desestruturadas, sem qualquer noção de valores humanos. E hoje esles estão aí, para cobrar tributo das ‘famílias nobres’ e de classe média alta que foram os principais criadores de toda essa infâmia. É muito fácil dizer que bandido tem que morrer. É muito fácil dizer que não há diferença entre um criminoso de 16 e um de 26 anos. É muito fácil negar a própria responsabilidade na geração dos problemas sociais. É muito fácil colocar a30-willful-ignorance cabeça em um buraco e fingir que o problema é dos outros ou está lá fora. Mas por incrível que pareça ainda há, entre os que defendem a redução da maioridade penal, pessoas da mesma geração em que pais expulsavam filhas de casa pelo bem da moral e dos bons costumes. São os que pregam moral de cuecas. São os que dizem que ‘bandido tem que morrer’, mas esquecem que alguns desses bandidos, podem muito bem serem seus bisnetos, nascidos em favelas cujos pais e mães foram gerados por moradores mais antigos da mesma favela e que ali chegaram vindos de famílias que os expulsaram de casa um dia, há trinta ou quarenta anos. O empresário bem sucedido que é vítima de um sequestro relâmpago e acaba morrendo por ter reagido, pode ser o mesmo pai que há quarenta anos expulsou uma filha de casa para defender a ‘honra da família’ e o sequestrador pode muito bem ser o bisneto de um grande amigo do empresário que também Sequestrofez a mesma coisa lá no passado: Expulsou uma filha de casa para defender a honra da família. É a concretização irônica da frase: “Chumbo trocado não dói”. Mas nesse caso dói, e dói muito, mas o sujeito não entende que suas ações no passado foram a causa e tem consequências no presente. E nunca vai entender. Lei de Causa e Efeito. Plantio livre, colheita obrigatória. Na cabeça dele, bandidos não nascem, brotam do chão e já caem na criminalidade. Prostitutas não nascem, brotam do chão e já caem na zona. Não existe e nunca existiu causa primária.


MINHA OPINIÃO PESSOAL

Se a redução da maioridade penal passar e for aprovada, dentro de cinco anos haverá um forte movimento pedindo nova redução, dessa vez para 14 anos. E mais três anos depois, já estaremos pleiteando uma redução para 12 anos. E dentro de dez anos o que teremos? Crianças de 10 anos sendo ‘usadas’ pelos ‘dimaió’ justamente por ainda serem ‘dimenó’ para cometerem crimes. E tenho dito. Escrevam por favor. 

Eduardo lbm


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9 ideias sobre “O CERNE DO PROBLEMA SOCIAL

  1. fran1000

    A redução da maioridade penal é uma atitude imediatista, do Estado, para tentar suprimir os altos índices de criminalidade no país….mas, é uma medida ilusória.
    O Brasil não necessita de novas leis. Elas já existem só que não são aplicadas.
    O problema todo está nas estruturas sociais do país. No momento em que o Estado fizer aquilo para o qual existe (e, é muito bem pago, por sinal) que é a garantia dos direitos fundamentais (saúde, educação, segurança, dignidade) não haverá necessidade da criação de novas leis.

    Resposta
  2. Joao Batista

    Concordo como o texto mas…
    Mas afinal, o que define uma maior idade penal? Porque 18 anos?
    Acredito que quando foi definido essa idade, teve algum estudo que comprovou que essa era a idade ideal.
    Acontece, que os tempos mudaram e muito. A 30/40 anos atrás um jovem de 16/17 anos tinha uma “programação” mas lenta e consequentemente a absorção demorava mais.
    Muitos da minha geração (tenho 52), tirando as fantasias sexuais, teve a primeira relação depois dos 18. O foco da maioria, era nos estudos.
    Com a “programação” de hoje, você encontrar alguém virgem com 15 anos, é coisa rara. O comportamento sexual é só um exemplo do amadurecimento precoce dos jovens.
    Na minha opinião, nem deveria ter essa lei de maior idade penal. O sujeito deveria ser punido pelo grau do crime que cometeu. Como é feito em alguns países desenvolvidos, com EUA e Inglaterra, por exemplo.
    Uma coisa eu tenho certeza: Tem alguma coisa errado e é preciso fazer algo e urgente.
    A palavra chave chama-se: PUNIÇÃO. Errou tem que pagar.
    Se o pai/mãe relevar o erro do filho, estará fazendo um grande mal ao mesmo.
    ERRO=CASTIGO

    Resposta
    1. Eduardo LBM Autor do post

      joão Batista (Paleoseti), ainda estamos falando dos efeitos e não das causas. Por que os jovens de hoje estão mais acelerados? O que aconteceu nos últimos 40 anos que levou a isso? Perceba, João, que NÃO ACONTECEU, mas vem acontecendo gradativamente, persistentemente, e o que é pior: DESAPERCEBIDAMENTE. É uma programação, como você mesmo diz, mas que vem sendo implementada gradativamente e de forma não perceptível, desde os anos 50, ou seja, já faz mais de 60 anos que esse programa está sendo implementado. E qual é o objetivo desse programa? Pesquise como era a sociedade há 30, 40 50, 60 anos. Pergunte às pessoas bem mais velhas e pesque nas ‘entrelinhas’ das respostas delas. É um objetivo de longo prazo e o que o torna imperceptível para nós e o fato de nossas gerações serem muito curtas, cerca de 20 anos (vide teoria dos cinco macacos). E o principal objetivo desse programa é o de degenerar completamente a nossa sociedade. Se você ler os artigos LUZ E TREVAS e O GRANDE EQUÍVOCO e ‘pescar’ as ‘entrelinhas’ começará a entender o porquê de se investir numa sociedade degenerada, ansiosa, medrosa, desestruturada, apavorada, e por aí afora.

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  3. Sergio U Manes

    Por outro lado vejamos algo acontecido em 1975. Até esse ano os jovens podiam se reunir em grupos para passeios de “mobylets” que eram motocas de até 50cc, mas um filho de um “bacana” do RJ “se morreu” e proibiram para todo o Brasil. E hoje “teoricamente” é proibido de pilotar uma cincoentinha sem Carteira de Habilitação. Só na teoria, pois diz a lei que para tirar a Habilitação tem que ser PENALMENTE IMPUTÁVEL, portanto maior de 18. Ao baixar para 16, teremos + alguns milhões APTOS a se habilitar a ter outra “arma” na mão. Como acidentes c/mortes raramente dão cadeia, quem sabe se torne uma nova modalidade de crime.
    E também diz nas resoluções do CONTRAN que a EDUCAÇÃO para o trânsito deve começar a partir da educação básica, se souber me diga onde tem. Partindo da sua postagem e da resposta ao João Batista, aliado ao “cu$to” para tirar essa habilitação, quem você acha que vai tirar ela primeiro.
    Por essas e outras que muitos dizem “ALGUMA COISA TEM QUE SER FEITA”, não o TEMOS QUE PENSAR MELHOR O SISTEMA, POIS A RESPONSABILIDADE É DE TODOS, FOI O NOSSO VOTO. Ficamos só esperando um pastor para conduzir o rebanho. Preguiça mental impede o pensamento analítico.
    MUITO BOM SEU TEXTO.
    Abraço
    SENAM

    Resposta
    1. Eduardo LBM Autor do post

      Na resposta ao João Batista, faltou eu mencionar os artigos “O ESTADO FASCISTA” e “A BIOQUÍMICA DO AMOR“, onde descrevo um pouco da metodologia que o estado emprega para imbecilizar a população. Eu não lembro desse fato descrito por você (proibição das mobylette), mas lembro que em 1975 eu trabalhei no meu primeiro emprego com registro em carteira. Sim, porque antes disso eu já tinha trabalhado em vários outros empregos e nunca me senti explorado, pelo contrário, o que eu sentia era dignidade por poder ganhar meu próprio dinheiro e ainda colaborar com minha mãe. Sabe que idade eu tinha? Quinze anos. E eu já trabalhava desde os doze. Hoje proíbe-se o trabalho do menor sob a alegação de “exploração do trabalho infantil”, numa clara demonstração de que os ‘abostados’ que legislam resolvem a coisa de modo bem simples. “Para se acabar com os assaltos a bancos, fecha-se todos os bancos. Pronto! Não haverá mais assaltos a bancos”. Para se acabar com a exploração do trabalho infantil, proíbe-se o trabalho. Para acabar com a violência contra crianças e adolescentes, retira-se totalmente o pátrio poder dos pais e/ou responsáveis. É ou não é um processo de degeneração e desestabilização da solciedade, que está sendo sutilmente implementado?

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  4. Ana Cardoso

    Infelizmente, chegamos num ponto em que a violência beira a barbarie. Acredito, sim, que todo crime deve ser passível de punição de acordo com seu grau de violência. Não é possível admitir que um jovem de qualquer idade estupre, mate, incendeie sua vítima indefesa, sem que responda por isso! Hoje um garoto de 14 anos tem discernimento e compreensão dos fatos e sabe que se jogar álcool e acender um fósforo, sua vítima morrerá queimada! Os fatos são esses. Agora, que este jovem não pode cumprir sentença com um garoto que roubou um celular e/ou um homem de 20 anos que cumpre pena em uma penitenciaria, isto é óbvio. Para cada situação, uma solução.

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