Arquivo mensal: março 2016

FUGINDO DE SOFIA

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Um sonho de liberdade

Ouvi essa história em 1997, há quase 20 anos, de seu próprio protagonista, um homem de nome Petkov  que eu conheci em Chapecó/SC e que viveu na Bulgária nos tempos do regime comunista, mas recusava-se terminantemente a continuar vivendo sob o regime. Segundo ele me contou, se não conseguisse fugir do país antes de completar 30 anos, não tinha a menor vontade de continuar vivendo após isso, muito provavelmente iria atentar contra a própria vida. Como quem conta uma das histórias mais marcantes de sua vida, ele me contou em detalhes como conseguiu fugir em 1970, do pior e mais cruel dos países da cortina de ferro, aos trinta anos de idade e em companhia de dois amigos que se associaram a ele nessa empreitada. Dentre todos os países do bloco comunista, a Bulgária era o mais severo, o mais cruel com seus cidadãos, enquanto que a Iugoslávia era o mais brando de todos. Após anos de planejamento e aproveitando uma oportunidade de viagem à Iugoslávia, que por sua vez tinha fronteira seca com a Itália, Petkov empreendeu uma emocionante fuga para a liberdade, mas não sem percalços.  


Train-Bulgarian-borderPetkov vivia em Sofia, Bulgária e era engenheiro mecânico especializado em mecânica pesada no setor ferroviário. Suas habilidades e atributos lhe conferiam alguns privilégios, tais como, um salário um pouco melhor e veículo para se deslocar, mas liberdade não tinha nenhuma: era uma propriedade do estado, tinha que fazer o que o regime determinava e ir para onde o regime determinava. Viver num país de cujo regime comunista era o mais severo, era como viver num covil de serpentes. Até mesmo os familiares eram delatores do regime, devido ao forte medo que lhes era imposto. Era comum filhos serem delatados pelos próprios pais e também o contrário. _58920744_bul_demo_nov89_gAmigos delatavam amigos. Para se ter uma ideia da rigidez do regime, a simples intenção de fugir já era punida com uma semana de cadeia. Como assim, a simples intenção? Ora, pois, bastava que alguém fizesse um  comentário inocente com um amigo, manifestando o descontentamento com o regime e a ideia de fugir, se encontrasse os meios e pronto! O próprio amigo o delatava, por medo de ser interpretado como conivente ou cúmplice. Se uma pessoa fosse pega empreendendo uma fuga de fato, era punida com um ano de cadeia.


dry-border-bulgaria-turkeyO Estado Búlgaro empregava muito esforço, recursos e logística, somente para garantir que nenhum cidadão pudesse fugir do país. Nas fronteiras secas, além de cercas de arame quase intransponíveis e de um forte policiamento, chegavam ao cúmulo de utilizar tratores com arados acoplados para afofar a terra a uma certa distância das cercas (dezenas de metros) para poder detectar facilmente as pegadas de possíveis fugitivos. Como as fugas eram empreendidas em sua maioria à noite, alguns minutos após a passagem do trator, vinham soldados de Jipe com lanternas para verificar a possível existência de pegadas e, caso as encontrassem, imediatamente empreendiam uma caçada e captura. Fugitivos não tinham a menor chance.


sfcarqpanoramaValores espirituais, intelectuais ou religiosos, simplesmente não existiam nessa sociedade. Pensar era crime, bem como professar alguma religião. Escolas eram meros locais de formatação de mentes (lavagem cerebral). Mesmo assim, haviam igrejas e locais de culto escondidos, muito bem disfarçados, onde as pessoas mais religiosas podiam exercer sua religiosidade, mas com muito cuidado, já que para o regime qualquer reunião de pessoas em um local fechado era proibido. Manifestações artísticas, zero. Iniciativa privada? Nem pensar. As pessoas eram propriedade do Estado e suas ocupações eram por ele determinadas. Por ironia do destino ou sabe-se lá o porquê, o país comunista de regime mais rígido e cruel, fazia fronteira com outro país, também comunista, mas de regime mais brando em relação aos demais: a Iugoslávia. Era possível viajar de trem entre os dois países, mas apenas com permissão e, é claro, a permissão tinha que ter um motivo, senão…


566467463Era permitido aos trabalhadores, quando de direito, tirar ferias e até viajar, mas só era permitido viajar para países do regime. Petkov aproveitou-se de uma dessas ‘licenças’ e, associado com dois amigos, escolheu viajar de trem para Iugoslávia. Difícil confiar em amigos num regime onde cada amigo pode ser um delator em potencial, mas Petkov tinha esses dois amigos com os quais convivia já há muito tempo e tinha um alto grau de confiança, já que eles também, em conjunto com Petkov, silenciosamente e ao longo dos anos planejaram a fuga nos mínimos detalhes. Eles já tinham tudo planejado: conseguiram fazer coincidir as férias bem como uma licença para viajar a turismo para a Iugoslávia. Iriam de trem até Belgrado onde passeariam um ou dois dias como bons turistas,balkanrails depois embarcariam em outro trem para Zagreb onde comprariam cigarros e bebidas (escondidos, é claro). Novamente embarcariam para Ljubljana (acho que é Liubliana em Português, atual capital da Eslovênia) e chegando lá, deveriam aguardar um outro trem que os levaria até um entroncamento ferroviário (não consegui encontrar o nome da cidade) e então estariam bem próximos da fronteira entre Iugoslávia e Itália. Depois disso empreenderiam uma longa caminhada a pé, enfrentando frio e fome, já que não poderiam carregar muita bagagem, motivo de terem comprado bebidas e cigarros. Mas algo deu errado…


rakic9-300x157Na estação de Ljubljana, enquanto aguardavam na plataforma, foram abordados por um soldado do regime que desconfiou que os três estavam empreendendo uma fuga. Chamou-os para um pequeno escritório na estação e começou a interrogá-los. Eles negaram veementemente que estavam a fugir, alegando que estavam fazendo turismo e que tinham a devida permissão para isso, o que era verdade e tinham os documentos para comprovar, mas o soldado não aceitou as desculpas e ordenou-lhes que embarcassem no próximo trem de volta a Zagreb ou Belgrado. Ato contínuo, confiscou-lhes as bebidas, mas deixou-lhes ficarem com os cigarros e disse-lhes em um tom de quem já sabe de tudo: Isso aqui vocês não podem levar (recolhendo as garrafas de bebidas), mas isso aqui vocês irão precisar (empurrando na direção deles os cigarros).


kerte__769_sz_peopleonplatformattrainstation_800__24481Completamente desolados, os três permaneceram na plataforma mas, ao chegar o próximo trem que ia para Zagreb, eles se recusaram a embarcar, permanecendo ali sentados. Algum tempo mais tarde, o mesmo soldado que os interrogou, aborda-os novamente e pergunta o porquê de não terem embarcado e eles não conseguem dar uma resposta satisfatória, dizendo apenas que não quiseram embarcar. O soldado então, obriga-os a embarcar no próximo trem para Belgrado, e insiste: “Você devem embarcar e retornar! Isso é para o bem de vocês!” E lá foram eles, de volta a Belgrado, com aquela sensação de que tudo estava perdido. Mas a viagem até Belgrado era longa e no caminho ainda tinha Zagreb e muitas outras estações, mas entre Ljubljana e Zagreb, em algum ponto do trajeto, o trem começou a andar muito devagar, quase parando. Os três se trains_by_mexi_spazentreolharam e decidiram: “Vamos pular aqui.” E assim fizeram. Já do lado de fora, enquanto caminhavam e o trem se deslocava lentamente, viram através de uma das janelas do trem, outro soldado do regime, que estava sentado junto à janela e os encarou por alguns segundos, o que foi suficiente para que eles ficassem paralisados de medo e com a sensação de que “fomos pegos”, mas para surpresa deles, o tal soldado olhou rapidamente para a direção oposta numa clara atitude de quem diz: “Não vi vocês, sigam em frente!”


Aliviados, seguiram caminhando junto à linha do trem até que avistaram um vilarejo, desses que tem apenas meia dúzia de casas, e dirigiram-se para lá. Lá chegando, tiveram a nítida sensação de que estavam sendo aguardados e foram muito bem recebidos pelos locais. Depois de algum descanso, foram abordados por um homem que perguntou-lhes na lata, diretamente: “Vocês estão fugindo, não estão?!” Petkov olhou para o homem com aquela cara de “fomos descobertos, não adianta negar!” e disse: “Sim, estamos, por quê? O homem respondeu então que iria ajudá-los nessa empreitada, Sfrje quando perguntado o porquê de tanta boa vontade, ele respondeu: “Já tentei fugir muitas vezes e sempre fui apanhado, então acabei conhecendo todas as manhas e artimanhas necessárias para fugir com sucesso, mas resolvi permanecer aqui e ajudar de bom grado a todos aqueles que querem fugir do regime. Podem contar comigo! Hoje vocês descansam, amanhã iremos até a fronteira e lá chegando, deixarei vocês num ponto onde é possível passar facilmente para o outro lado. Daí em diante será por conta de vocês. Deixo vocês no local certo, mas a passagem vocês é que terão que fazer. Se forem bem sucedidos, ótimo. Mas se forem apanhados, não conheço vocês.”


270095_1980478224844_1029826002_31751901_5640809_nO local a que o homem se referia era um ponto falho na fronteira uma espécie de reentrância no muro onde era possível se esconder durante o tempo em que os guardas se revezavam indo para lá e para cá enquanto vigiavam a fronteira. Havia um acordo diplomático em que os soldados poderiam atirar para matar caso surpreendessem algum fugitivo, mas as balas disparadas jamais poderiam atingir o território italiano, isto é, não poderiam atirar em direção à Itália, mas apenas tiros rasantes próximos às cercas da fronteira, de modo que as balas em sua trajetória ficassem sempre em território Iugoslavo. Agora imagine: uma reentrância no muro, soldado indo e vindo, poucos segundos para chegar nessa reentrância, escalar e pular para o outo lado sob a mira de fuzis. Fácil, não? Bom, disse Petkov que ele e seus amigos conseguiram, um a um, passar para o lado Italiano, mas não sem levar uns tiros. Felizmente não foram atingidos, graças ao acordo diplomático, e uma vez que estavam no lado italiano, ainda foram xingados pelos soldados de fronteira que frustrados esbravejaram bastante, mas nada podiam fazer.


528e4bb96No lado Italiano, caminharam até chegar a um campo de refugiados, que por sinal, não era muito longe. Lá chegando foram recolhidos como refugiados e entrevistados por funcionários do governo Italiano que faziam perguntas diretas e em tom sarcástico. “Por que você fugiu de lá?” – “Vim em busca de liberdade!” – “Que liberdade? Você acha que vai ser livre do lado de cá?” – “Sim, acho que vou. Pelo menos aqui é melhor do que lá!” – “Como assim, melhor? Lá o Estado te dava emprego, aqui você vai ter que procurar emprego e você ainda acha que é melhor?!” – “Sim, acho. Prefiro procurar emprego e ter liberdade, mesmo com dificuldade, do que ser uma propriedade do Estado.” Como podem ver, Petkov sabia ser tão sarcástico quanto o funcionário que o entrevistou. Segundo ele me contou, ele e os dois amigos dele foram obrigados a permanecer no campo de refugiados por vários dias e isso tinha uma razão. Era necessário um período de acomodação psicológica antes de ser liberado para ‘ir procurar emprego’. Disse-me Petkov que depois de vários dias, teve uma noite em que ele teve fortes pesadelos, gritava muito e suava, sonhava que estava sendo perseguido e capturado pelos soldados regime, sonhava que estava sendo conduzido de volta à Bulgária para cumprir pena por fuga. Acordou gritando e todo suado. Nesse dia, o sujeito que controlava o campo de refugiados disse a ele: “Agora você está pronto para ir embora. Você acaba de passar pelo processo de libertação psíquica do trauma da fuga.” Contou-me Petkov que nenhum refugiado era liberado para seguir em frente enquanto não tivesse os tais pesadelos. Segundo o que eu entendo, esses pesadelos eram uma espécie de limpeza psíquica e uma vez passado por isso, a pessoa estava pronta para ir embora.


Recado ao Petkov

Manol Petkov, esse foi o nome pelo qual você se identificou, e caso você ainda esteja vivo, presumo que esteja hoje com 77 anos. Se esta história de alguma forma chegar até você, gostaria muito que você se manifestasse na área de comentários e ajudasse a eliminar algumas inconsistências e imprecisões, pois após quase vinte anos, é difícil lembrar da história em toda a sua extensão. Gostaria muito que entendesse a publicação dessa sua história de vida, não apenas como uma homenagem ao seu espírito bravio e indomável, que recusou-se a viver toda uma vida sob um regime comunista, mas principalmente como um alerta, numa época em que estamos presenciando um enorme esforço por parte de grupos e partidos de esquerda em tentar implementar esse regime nefasto e hediondo em nosso país. 

Eduardo Scapelatto